É muito estranho viver numa sociedade hipócrita, com pretensos defensores das liberdades, dos bons costumes e da moral e ética. Viver junto daqueles que pregam amor ao próximo, como manda um livro que nunca leram e não fazem a menor ideia de quem escreveu, mas não conseguem idolatrar nada além do próprio umbigo. Fingem ser altruístas, solidários, mas os únicos favores que prestam são aos próprios amigos ou familiares. Sentam-se numa casa do povo para ler trechos de um livro tido como sagrado, com a voz engasgada e leitura trêmula, para depois barganharem para defenderem seus interesses mais mesquinhos.

A anarquia, que nos livraria destes parasitas, pois não haveria políticos profissionais nem governantes distribuidores de cestas básicas ou panetones, é uma utopia distante para uma sociedade altamente dependente dos favores prestados por um estado corrupto. A gestão da comunidade deveria ser feita por homens e mulheres que acreditam nesta comunidade, num modelo próximo do associativismo e cooperativismo. Uma gestão realmente solidária. Mas isto é uma ilusão, e já não tenho mais 15 anos para sonhar com um mundo livre, livre do poder do capital e de seus capitalistas, grandes ou pequenos. Capitalistas que se dizem preocupados com o desenvolvimento sustentável, mas, apenas querem sustentar suas gordas participações nos lucros da exploração do trabalho. Mas vão à missa todo domingo ou ao culto semanal no templo ou sinagoga.

As religiões estão aí para manipular e permitir que o ser humano cometa todo tipo de barbaridade e entre, depois, num templo e peça perdão pelas besteiras que fez. Mas pede perdão para um objeto pendurado na parede ou para uma criatura imaginária, jamais tem a coragem de dirigir-se ao ofendido para resolver esta questão. Todo ser humano tem problemas com a consciência, ela é uma característica para preservação da espécie. Um ateu, quando erra, não tem escapatória, para dormir precisa resolver seu problema com o ofendido, não adianta apenas ter a sensação de alívio rezando meia dúzia de orações. Um sacerdote hipócrita, de fala mansa, representante de um deus na Terra, é capaz de acobertar crimes hediondos de seus pares apenas para preservar uma instituição falida que comercializa indulgências e cobra dinheiro material para salvar almas e espíritos.

Em nome de deuses, bilhões de seres humanos já foram mortos ou torturados ao longo de toda a história humana. As unidades prisionais são uma ótima amostragem do que serve a religião, basta comparar os índices de prisioneiros crentes e ateus. Na sociedade é de aproximadamente 15 % a quantidade de ateus convictos, numa cadeia, não chega a 1%. Mas os fiéis acreditam que os ateus são seres perigosos e malvados, por isto os condenam, preferem acreditar em quem diz que tem deus no coração, mesmo que da boca pra fora. Fingidos, de fala mansa, mas armas em punho.

Um religioso tem coragem de praguejar contra uma cidade inteira somente porque não foi bem recebido e depois ainda dá nome às praças, ruas e edifícios. Um ateu, que tenta lutar por uma comunidade livre, moderna e desenvolvida, é condenado ao exílio ou ao silêncio. Sofre ameaças dos hipócritas para que eles continuem rezando e mandando. Os poderosos, além de hipócritas, são burros, pois não conseguem, minimamente, apresentar argumentos simples para defender seus pontos de vista; claro, como argumentar para defender que é certo o desvio de verba, uso de bem público, o cerceamento da liberdade de expressão, manipulação da fé e inocência de um cidadão?

Isto tudo cansa. Ver pessoas que saem de seus cultos religiosos desfilando suas melhores vestimentas para depois falarem mal de alguém, inventarem acontecimentos, discriminarem minorias. Ver pessoas sentadas nos bancos das praças reclamando da vida, do governo, do vizinho; depois se levantam, vão para suas casas e começam tudo de novo. Falam de pessoas, raramente de coisas, nunca de ideias. O mais interessante é que isto não é regra geral para a maioria das pessoas, mas a natureza é cruel, basta uma maçã podre para acelerar o processo de apodrecimento das demais, o inverso não ocorre. É uma pena! A raiz de todo mal é a suposta existência de um deus da bondade e da compaixão.

O instinto de sobrevivência, não o coletivo ou da espécie, fala mais alto; o instinto de sobrevivência do indivíduo e seus parentes próximos comanda a busca pela liberdade, a única liberdade capaz de ser obtida, a liberdade de poder voar de gaiola em gaiola. Resta, minimamente, uma vida restrita ao pacto de sobrevivência, compactuando com a hipocrisia da sociedade, até que seja possível ser dono da própria alma, obtendo a liberdade do guerreiro.

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