O que é um cidadão? A origem da palavra é clara, cidadão é um sujeito que mora na cidade. Hoje, deram outra conotação para esta palavra, que significa aquele que tem e exerce seus deveres e direitos, especialmente os políticos. Mas, no fundo, é uma grande balela, cidadão ainda é aquele que está nas cidades, pelo menos é isto que tem demonstrado as recentes discussões político-sociais, especialmente sobre legislação ambiental.

Ora, o sujeito que mora nas zonas rurais desde país é tratado de forma diferente daquele que mora nas cidades, basta ver:
- O direito de ir e vir é ridículo, as estradas estão em condições miseráveis. Quem não tem um bom jipe para chegar em casa tem que andar a cavalo ou mandar a família morar na cidade durante a semana. Isto acontece porque a quantidade de habitantes na zona rural está diminuindo, consequentemente tem poucos votos, nenhum político decide eleição com voto da roça.
- Telefonia parece piada. Não existe telefonia fixa nas zonas rurais, mas em alguns lugares até chegam sinais de celular. Mas, pasmem, muitos dos serviços prestados por telefone, os 0800, não aceitam ligações de celulares. Até mesmo empresas que vendem produtos para o produtor rural na televisão colocam números tarifados para quem ligar a partir de celular e gratuitos para chamadas originadas de fixo, ou seja, o cidadão.
- Internet na roça? só quando o produtor é rico e desembolsa uma boa grana para instalar rádio, ou quando o novo morador rural é egresso do mundo da tecnologia, aí ele mesmo instala e configura seus radinhos mais baratos.
- Energia elétrica é um serviço que melhorou bem, recentemente, mas por conta dos subsídios que o governo deu para as operadoras, sob custos e benefícios que ninguém sabe e nem saberá.
- Educação é outra palhaçada. Se para os cidadãos a educação pública já é lastimável, imaginem para os roceiros, quilombolas ou indígenas. Além de ser sofrido o caminho até à escola, a qualidade do ensino é horrorosa, infraestrutura é precária. Isto tem desmanchado famílias, pois já está comum nas roças a mulher se mudar para a cidade com os filhos, para estes poderem ter uma educação um pouco melhor, e largam os maridos no trabalho do campo. Para poder aliviar as despesas, as mulheres precisam arrumar empregos, ou subempregos, deixando de produzir alimentos ou agregar valores à produção que o marido faz.

Mas, o que mais tem chamado minha atenção para esta diferenciação entre o cidadão e o roceiro é a nova lei ambiental, que é um primor de discriminação, violando a Constituição Federal quando diz que todos são iguais perante a lei. As regras que valem nas cidades não valem na zona rural, especialmente as que se referem às áreas consolidadas. Até entendo considerar margens de rio como área consolidada em cidades, fico imaginando uma cidade como Teresópolis que tem todos os edifícios do centro da cidade construídos às margens do rio Paquequer, sem nenhuma rua entre eles, ou seja, as costas dos edifícios estão quase dentro d’água, com seus esgotos ali para quem quiser ver. Ou ainda, imaginar reflorestar os jardins das mansões que existem às margens do rio Guaíba, em Porto Alegre. E todos aqueles condomínios maravilhosos de gente importante na Barra da Tijuca, às margens da lagoa Marapendi, área de mangue? Mas, um pequeno produtor que tem sua terra numa margem de um córrego de menos de um metro de largura, já desmatada há mais de cem anos, anterior à lei de 1965, que já sustentou esse pais de leite e café, é justo que agora não toque mais nela, seja obrigado a seu próprio custo a reflorestar, para benefício dos cidadãos? Então, além de todos os outros direitos que o roceiro não tem, citados acima, o direito constitucional à propriedade privada também está sendo violado. Mas, dirão os cidadãos que é por um bom motivo, a salvação do planeta por conta de um aquecimento global que virou religião entre os ambientalistas, já que acreditam como se fosse dogma, e um ótimo negócio para os capitalistas, ainda mais com esta nova onda de economia verde, deixando o produtor com a conta no vermelho. Enquanto os roceiros preservam as nascentes e margens de um rio Tietê, por exemplo, os cidadãos o matam em questão de poucos quilômetros quando suas águas passam pelas margens preservadas de asfaltos e alimentadas por milhões de bocas de esgoto doméstico, industrial e lixos de uma civilização decadente.

Então, os roceiros agora têm tratamento diferenciado, nova palavra do momento. São tratados oficialmente de forma diferente e terão suas propriedades violadas pelo mesmo Estado negligente para salvar cidadãos que jogam lixo nos rios, lagos e manguezais, constroem nas encostas para desabar durante as chuvas, com apoio de ONG’s com interesses espúrios que mantém em seus quadros reis caçadores de elefantes e seguidos por ambientalistas que defendem sua fé no aquecimento global da mesma forma que os fanáticos religiosos defendem o apedrejamento de homossexuais ou mulheres que amam.

Do mesmo jeito que os países industrializados e com natureza já destruída pressionam e mandam os países em desenvolvimento preservarem sua natureza e contenham seu desenvolvimento para que estes países continuem dependentes daqueles poderosos, os cidadãos querem que os roceiros, quilombolas e indígenas preservem e diminuam sua capacidade produtiva para que os cidadãos possam acabar com seus rios que cortam as cidades, poluindo à vontade, e se desenvolvendo de tal sorte que mantenham a produção de tudo que é realmente essencial para o ser humano, alimentos e água, sob controle desses cidadãos. E manter o produtor rural em situação financeira complicada é importante para que não hajam problemas sociais realmente sérios, pois o produtor não pode deixar de entregar seus produtos para protestar ou demonstrar sua importância, não tem poder de luta, afinal, se não vender sua produção por preços ditados por engravatados do ar-condicionado que nunca viram uma enxada perderá muito, até mesmo suas terras que estão penhoradas para garantir produção de alimentos para a sociedade, para os cidadãos. Eu gostaria de ver os CEASA’s desabastecidos por uns quinze dias, mas o já surrado homem do campo não tem esta força.

Em resumo, podemos concluir que agricultores, quilombolas e indígenas não são cidadãos, nem no sentido original da palavra nem no sentido atual. E ainda serão considerados criminosos se não entregarem parte de suas terras para os cidadãos, através de um Estado que começa a mostrar suas garras despóticas, já que isto aproxima-se de um golpe, pois é intervenção estatal na liberdade de uso da propriedade rural. Além disto, os não-cidadãos terão que trabalhar de graça para manter estas áreas bonitas, limpas e com sua biodiversidade recuperada. E os ambientalistas ainda estão ajudando este governo a dar o golpe, legitimando suas ações e garantindo que tudo isto é para o bem de todos e salvação do planeta. Aos poucos vão estatizar as terras e acabar de entregar a galinha dos ovos de ouro para o capital privado, como telecomunicações, transportes, aeroportos, mineração, bancos, saúde, previdência, etc. Deste jeito, só vai sobrar nas roças os peões que trabalharem para os empresários rurais que moram no conforto das cidades, e otimizam suas produções com base na mecanização de precisão, uso intensivo de agrotóxicos e grandes propriedades. Como diria nosso ilustre ex-presidente, tamufu!

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