Estou numa fase de relembrar de pessoas e fatos, numa espécie de balanço, para selecionar o que quero levar pro resto da vida na minha mochila ou largar no meio da estrada, nem que seja para servir de indicação para quem vier na mesma rota.

Lembrei de uma estória que ouvi de uma pessoa, destas que ninguém duvidaria de seu caráter cristão, bondoso e caridoso, de fala mansa e pretensamente divina, até que se conheça em profundidade e se perceba que a única relação com o cristianismo é com o episódio da serpente. Este comportamento, covarde e hipócrita, é típico de pessoas que contam a parábola que eu repito, comento e critico, para não perder o hábito. Esta estória serve aos propósitos camaleônicos das criaturas com espírito de répteis, enganando muita gente simples.

Mesmo com a ausência de uma música relaxante, ouvi mais ou menos o seguinte:

Estavam dois grandes amigos a caminhar por uma bela praia, com o sol reaparecendo após uma grande tempestade, que revirou até as areias do fundo do mar. Um dos homens, iluminado pela luz do sol, caminhava enquanto sorria e apanhava cada estrela-do-mar que encontrava agonizante na areia da praia e a lançava de volta às águas, já calmas, do imenso mar. O outro homem, um jovem ainda não desperto para as maravilhas do espírito, não entendia o esforço do amigo e, não resistindo à tentação de ampliar sua evolução espiritual, perguntou:

- Meu amigo, por que fazes tamanho esforço para salvar tão poucas estrelas-do-mar, isto não fará a menor diferença?

Ao que prontamente respondeu o outro, num tom de sabedoria:

- Pode não fazer diferença para todas as estrelas, mas fará para esta aqui. E enquanto houver uma única estrela-do-mar a salvar, estarei aqui.

Enquanto apanhava mais uma estrela e a lançava de volta.

Ouvir isto me causou uma revolta tão grande, que naquele momento eu desejei não ser humano. Aliás, era o que meu interlocutor provavelmente pensava, imaginando que eu fosse uma anta ou um jumento. Talvez eu seja. Afinal, ao reler o que escrevi acima, ainda sinto o mesmo.

Esse cinismo exagerado, de fazer outrem pensar que alguém seja altruísta, bonzinho, além de espiritualmente evoluído, é irritante e somente revela o que sempre digo a respeito de nós, seres humanos, somos falsos, hipócritas, safados e um projeto do criador que deu errado. Macaco, definitivamente, não foi uma boa escolha para a evolução.

Esta parábola, muito utilizada pelos adeptos do evolucionismo espiritual, revela que o homem é antropocêntrico e se julga realmente superior a tudo e todos, como o único ser capaz de entender tudo o que acontece e capaz de intervir da forma mais sábia. Convenhamos, se existisse uma besta para ficar tomando conta de cada bichinho que saísse de seu habitat natural para não morrer, não estaríamos aqui para tomar conta. Isto é um absurdo lógico, afinal, como um bichinho teria saído da água para evoluir?

Esta pretensão de alguns humanos, de tentar parecerem altruístas e salvadores, condena toda e qualquer tentativa de evolução de outros seres, da mesma espécie ou não. Julgam-se melhores e mentem para tentar demonstrar isto. A única moral que posso tirar desta estória é que não existirá evolução biológica para as estrelas-do-mar porque um deus superior assim o quis.

Como macaco não deu certo, poderíamos, pelo menos, ter a humildade de deixar as estrelas-do-mar tentarem evoluir. Quem sabe não apareça a tão sonhada criatura para a evolução espiritual? Pelo menos a evolução de alguns imbecis que realmente precisam aprender alguma coisa.

É baseado nesta premissa, fazer o bem sem olhar a quem, que Bush invade outros países para garantir democracia, juízes tiram o direito de escolha das crianças na merenda escolar, líderes religiosos matam quem não usou o véu, papas mandam queimar bruxas, pais espancam os filhos e o deus bíblico manda matar os idólatras.

Alexandre Guimarães

14/05/2006

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