Galera, após cerca de três meses na civilização, tentando alguma coisa que nem eu mesmo sabia exatamente o que era, volto para minha roça. Uma das coisas que eu queria era gerar informação suficiente para garantir que minhas percepções da realidade não estavam tão erradas; de fato, minhas percepções estavam erradas, a situação é bem mais grave do que eu imaginava. As pessoas estão mais imbecilizadas que há quatro anos, mais agressivas e egocêntricas, bem menos tolerantes. A outra era arrumar alguma atividade ou projeto curto que me permitisse levantar alguns trocados para investir em produção na roça. Do mesmo jeito que minha percepção volta pior, meu bolso também; volto agora sem as cabras, sem computador e sem a kombi.

Neste período, eu tive muito contato com as notícias fora da grande mídia e opiniões de pessoas, digamos, bem informadas, através de provocações tanto em redes sociais, blogs, vasculhas de documentos e papos ao vivo com pessoas, pasmem. Entretanto, pude perceber claramente que não há distinção entre islâmicos fundamentalistas, evangélicos fundamentalistas e defensores fundamentalistas do $i$tema e demais babacas metidos a resolver os problemas de todos menos os próprios, são todos hipócritas que querem apenas se autoproclamarem santos e de bom caráter, quando na verdade são uns escrotos oportunistas defendendo seus quintais por medo da existência de seres melhores. Sim, ainda existem alguns seres muito bons, mas eles não aparecem. Minha experiência de provocar reações controladas provou-me que pouca esperança há para uma real vida em sociedade; além da grande maioria que é, de fato, rebanho bem adestrado e vai terminar em um frigorífico, só é possível viver nesta sociedade as pessoas com avançado grau de controle emocional para ser um espreitador, fingir autismo social e tirar proveito disto, ou ser do grupo de comando. Não entendam grupo de comando como a elite social, esta elite é mais rebanho que crente fanático; grupo de comando é quem define exatamente o que cada um vai fazer, em qual manifestação comparecer de acordo com o valor do smartphone, o tipo de igreja que frequenta, quanto paga de mensalidade naquela faculdade de merda e qual canal de TV assiste, se aberta ou paga. Hoje temos pessoas preocupadas em aparecer na mídia ou no facebook posando de defensores do meio ambiente, compartilhando fotos de matas e bichinhos, administrando ONG’s interessadas em repasses de dinheiro das corporações e do governo que tanto chamam de corrupto para sustentarem seus sanduíches e refrigerantes no ar-condicionado, mas que são incapazes de plantar uma árvore sequer, a menos que tenha alguém tirando uma foto; projetos de recuperações ambientais decentes? Nem pensar, só se aparecer no Grobu Rural.

Apesar de voltar com menos ainda do que eu tinha quando saí e com mais braquiária na horta e pomar, fora uns quilos a mais recuperados na barriga, tenho mais convicção de que ainda preciso ficar na roça, seja para preservação mental e psicológica, seja para adquirir mais energia que me permita espreitar com mais qualidade e assim poder imaginar uma vida menos nociva e intoxicante para mim; é imprescindível tornar-me indisponível ao sistema como um todo. Viver DA roça é bem diferente de viver NA roça, apesar de muitos acharem que a vida no campo é pegar alface fresca na horta e jogar milho para as galinhas. Mesmo sendo serviço braçal puro, serviço de peão analfabeto, é muito mais gratificante e edificante mental, emocional, física e espiritualmente que qualquer trabalho que atualmente eu poderia exercer nesta sociedade doente e terminal, pois quase qualquer coisa que eu pudesse fazer serviria para alimentar um sistema com o qual não consigo compactuar desde que me entendo por gente, por isto sempre pareci inconstante, rebelde, revoltado e, sobretudo, mal-educado.

Infelizmente, não posso me enganar e usar frases de funcionários públicos exemplares dizendo, hipocritamente e às 18 horas, que estou com sensação do dever cumprido. Não, não volto com o dever cumprido. No resumo da ópera, me fodi! O paradoxo, consolo ou revolta, é que não é a primeira vez. A todos que contribuíram positiva e negativamente com minha busca, deixo meu muito obrigado e desejo sincero de que tudo isto seja apenas uma fase estranha no caminhar da humanidade. Inté mais!

Leave a Reply

(required)

(required)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

© 2015 Alexandre Guimarães Suffusion theme by Sayontan Sinha