A discussão sobre preservação de meio ambiente e recuperação de áreas degradadas, incluindo nascentes e cursos d’água, é rotineira na mídia, rodas acadêmicas e de ambientalistas de botequim. Quando o assunto é aquecimento global, todos são unânimes em dizer que precisamos fazer algo urgentemente, mas entre um gole e outro, ou numa passeata em cidades que a grande mídia mostra.

Já o assunto agricultura familiar só é tema de discussão em feiras de agricultores preocupados com as contas ou em seminários acadêmicos recentes para demonstrar preocupação governamental com esta classe de trabalhadores, mas como numa operação Carmem Miranda, é muito balangandam e pouca concretude. O pouco de concreto é  associado apenas à produção específica de alguns itens, e isto graças à extensão rural, que é o órgão que ainda presta atenção a este segmento. Não há uma linha de serviços sistêmicos ao pequeno e familiar, é tudo orientado a produtos, especialmente as linhas de financiamento. Recentemente, começa-se a observar trabalhos voltados à integração de vários produtos, como consórcios de plantas e animais, mas apenas focado naquilo que nossa sociedade espera: lucro e produtividade.

As ações de governo são estúpidas e inócuas no que se refere a uma produção ecologicamente sustentável de alimentos. A preocupação é com aparências, tanto que o governo anunciou neste início de dezembro de 2016 que vai investir na imagem de sustentabilidade de nossa agricultura, especialmente na Europa, que desconfia da qualidade de nossos produtos. Ou seja, a preocupação é apenas cosmética, sem conteúdo e sustentabilidade de fato.

Não há, pelo menos de forma abrangente e programática, uma linha de orientação ao produtor familiar que inclua o assunto preservação ambiental, exceto alguns grupos auto-organizados de especialistas e apaixonados pelo assunto, como associações de produtores agroecológicos e praticantes de modelos sistêmicos, como sistemas agroflorestais e agricultura sintrópica, que ganhou alguma notoriedade por conta de novela. Se perguntarmos aos típicos e tradicionais produtores familiareso que é uma agrofloresta, permacultura,  evapotranspiração para tratar resíduos, adubação verde, uso de plantas irmãs numa horta ou nomes como Ana Primavesi, Ernst Gotsch ou Bill Mollison, nenhum saberá responder, talvez um ou outro diga que viu alguma reportagem sobre “uns trem estranho” enquanto tomava café da manhã. E esta ausência de orientações técnicas agrícolas e ecológicas mantém o produtor familiar na ignorância ambiental, um refém do aquecimento global, pois é assim que ele se sente, alguém que não pode fazer nada pois é inevitável o fim do meio ambiente pela indústria poluente. Sim, é assim que ele entende as notícias e matérias que a mídia divulga.

Ainda é muito comum, especialmente entre aqueles produtores mais antigos, a noção de que pasto tem que ser limpo e isento de arbustos, topo de montanhas é um bom lugar para o gado, deixar cursos d’água acessíveis ao gado, uso intenso de glifosato até para plantar aquele milho destinado a jogar para galinhas, e a monocultura ainda é a preferência, até quem tem umas vacas de leite e uns pés de café abandona uma das produções. Mas, uma coisa todos esses produtores são unânimes em dizer: antigamente tinha mais água, mas a indústria está acabando com o planeta, por isto não temos mais água. Não há a menor ideia de correlação entre os pastos abertos e roçados com a falta de água na propriedade, a culpa não é dele; pelo menos é assim que se pensa. Na visão deste produtor, o pasto raspado e compactado pelo excesso de gado não tem nada a ver com a diminuição da água. Portanto, se a culpa não é dele, ele não tem que fazer nada, como se devêssemos fazer algo apenas quando somos culpados ou responsáveis.

E ainda existe um outro fator, cultural, que impede que ações de grande porte e de órgãos oficiais tenha sucesso junto ao pequeno produtor, é a descrença e a desconfiança. Na Embrapa, ainda nas décadas de 1980 e 1990, havia uma preocupação dos pesquisadores pelo fato de os produtores, até mesmo próximos aos centros de pesquisa, não acreditarem nas propostas de inovação ou mudanças de técnicas de produção. Os produtores sempre falavam a mesma coisa: “isto é coisa de governo, funciona porque tem dinheiro sobrando, quero ver fazer sem recursos”. Assim ficou claro a necessidade de centros de referência reais e próximos da realidade deste produtor, pessoas que falam a mesma língua, passam as mesmas necessidades e problemas, para que o pequeno e familiar possa acreditar e adotar práticas agrícolas com resultados produtivos e conservacionistas.

Disto tudo nasce a aparente desconexão entre agricultura e preservação ambiental, pior, como se não fosse possível a prática de produção de alimentos de forma a preservar, ou mais, recuperar áreas devastadas por décadas de práticas ignorantes com a único objetivo de obter lucro acima de qualquer coisa. Mas, não há como recuperar e preservar sem os agricultores, ninguém vai sair das cidades em direção ao campo para recompor matas ripárias, topos de montanhas e todos os tipos de áreas de preservação e mesmo recuperar erosões e voçorocas, mesmo havendo técnicas e projetos bem definidos para isto. Por mais que existam projetos maravilhosos para recuperação ambiental, não tem quem coloque em prática, a não ser o agricultor, que já está no campo, só não sabe como fazer, menos ainda o que fazer. A solução é unir a orientação e conhecimentos técnicos com a capacidade de trabalho dos produtores familiares.

Como mudar isto? Ficar sentado esperando algum governante iluminado fazer algo? Não, absolutamente não, nosso destino está em nossas mãos, devemos nos organizar para levar conhecimento e informação ao produtor familiar. Mas, por que o familiar? Simples, o grande e empresarial produtor sabe disto tudo, mas foca apenas na produtividade e lucro, por convicção ou submissão ao poder do capital; já o pequeno é por ignorância, mas é em maior quantidade, ou seja, se houver uma reação em cadeia com o processo de difusão deste conhecimento, o efeito será mais perceptível e rápido, além do que as áreas dos pequenos é próxima aos grandes centros, podendo haver uma maior integração entre os produtores e os moradores de cidades neste processo de recuperação ambiental. Trabalho de formiguinha.

Por tudo isto, os cidadãos responsáveis de fato, que realmente desejam ver nossas águas rebrotando nas nascentes, matas diversificadas nutrindo o solo e animais, precisam se organizar em ONG’s, associações e cooperativas com a finalidade de levar o conhecimento e técnicas de recuperação ambiental e produção agroecológica e sustentável de alimentos aos produtores familiares, através de dias de campo, reuniões em câmaras municipais, sindicatos, escolas, etc. E, claro, realizar mutirões, afinal, “quem quer faz, que não quer, manda”.

Alexandre Guimarães

02 de dezembro de 2016

Sorry, the comment form is closed at this time.

© 2015 Alexandre Guimarães Suffusion theme by Sayontan Sinha