Caxambu é uma pequena cidade do sul de minas com economia baseada no turismo em função de suas águas minerais, que pelas propriedades medicinais estimulam a busca por saúde e bem estar. De povo hospitaleiro, comum em Minas, é cidade pacata e sem os grandes tumultos de cidades maiores, embora durante algumas festas, como o carnaval, a cidade fica bastante agitada.

Mas o fato de ter sua economia baseada no turismo, eu observo erro semelhante ao cometido em outros lugares turísticos que é, basicamente, confundir exploração do turismo com exploração de turista. Em Caxambu esta confusão não é grande, visto que a vocação turística não é artificial, como em Teresópolis, que esquece sua condição natural e acredita que ter uma “feirinha de artesanatos” é suficiente para tornar um lugar turístico. Este é o erro, turismo é essencialmente serviço e não comércio. Claro que comércio faz parte da indústria turística, mas é conseqüência e não causa.

Outro ponto importante para identificar e qualificar a real vocação turística de uma cidade é preocupação com a manutenção da cidade, tanto as atrações como as áreas públicas. Isto a Prefeitura de Caxambu tem feito, recuperando trechos do Parque e das praças que, se não me falha a memória, não recebiam este tratamento há muito tempo. Mas não só o poder público tem que demonstrar isto, o povo também, não depredando, sujando, etc. Neste quesito, convenhamos, o mineiro do interior também não decepciona, ao contrário do que se vê em Teresópolis, com suas constantes inundações por conta de lixo em esgotos. Mas isto não vem ao caso.

Outro erro normalmente observado em cidades turísticas é que o lazer, a diversão, o prazer, enfim, a felicidade, é um benefício para o turista e não para o cidadão local, como se estes fossem serviçais dos adorados turistas que aparecem na cidade, gastam algum dinheiro, sujam os pontos mais importantes da cidade e depois retornam para suas vidas limpas e organizadas.

Baseado nestas duas premissas, que o turismo é serviço e turismo é universal, discuto a seguir algumas idéias para melhorar Caxambu, não apenas para o visitante, mas, sobretudo, para a população local.

1)  Isenção de cobrança para entrar no Parque das Águas, pelo menos durante a semana comercial. Alguns podem alegar que a cobrança é para manutenção do parque, mas com o parque vazio durante a semana não fará diferença substancial na arrecadação.

2)  Permissão de tráfego de bicicletas no parque, pelo menos em alguns horários, para garantir exercícios e bem estar, nos moldes de cidades mais avançadas.

3)  Promoção de eventos, especialmente ligados aos esportes de aventura, de forma sistemática e ativa, não se sujeitando, apenas, fazer parte de calendários de outras organizações.

4)  Construção de um distrito de serviços, nos moldes dos usuais distritos industriais, mas sem os problemas decorrentes com poluição, baixas remunerações, etc. Um lugar onde a população da cidade e região encontrará clínicas, restaurantes, oficinas e centros de treinamento.

A isenção de ingresso permitirá ao morador usufruir daquilo que ajudou a construir e ajuda a manter, além de garantir o que é constitucional, o direito ao lazer. Com o parque aberto, evitar-se-á o tumulto observado nas manhãs e noites frias pela coleta da água, que é um direito do cidadão, além de permitir a busca pela saúde, com caminhadas em horários mais convenientes aos habitantes da cidade, podendo incrementar o uso do balneário para tratamentos alternativos, estimulando a geração de empregos de prestadores de serviços da área de saúde.

Os moradores já utilizam bicicleta como meio de transporte, mas por necessidade. Entretanto, existem muitas outras pessoas que poderiam se exercitar desta forma, mas que não podem em função do trânsito, que mesmo de baixa intensidade impede os ciclistas menos habilidosos. Além disto, passear de bicicleta no parque deve ser extremamente prazeroso.

Existem alguns eventos que ocorrem em Caxambu, mas que são determinados pelos próprios organizadores, não sendo uma atividade rotineira de alguma secretaria municipal. Reuniões de Rotary, Lions, e de alguns Clubes de jipeiros não são suficientes, mas com certeza são necessárias. Estas atividades não devem ser apenas tratadas pelo setor hoteleiro que, de fato, aumentam a arrecadação municipal, mas trazem benefícios diretos apenas para este setor. A prefeitura deve buscar participar e fazer parte de calendários de provas desportivas, como Mitsubishi Cup, etapas de vôo livre, etc. Este tipo de evento não traz apenas receita para a rede hoteleira, gera oportunidades para outras pessoas da comunidade, além de fazer propaganda gratuita da própria cidade, o que é muito útil para garantir o sucesso do Centro de Serviços, por exemplo.

O Centro de Serviços, que, creio, deve ser instalado nas proximidades do trevo de Baependi, estimulará a geração de empregos qualificados, melhor remunerados, que permitirá que Caxambu se torne centro de referência na região, aumentando a geração de riqueza e a conseqüente arrecadação da cidade, já que ISS é um imposto municipal. Com este incremento de arrecadação a municipalidade pode garantir o bem estar da população local.

É claro que não é uma solução mágica, ela requer muito esforço e trabalho, tanto da Prefeitura quanto dos moradores e, eventualmente, de agentes externos, visto que a cidade não tem características empreendedoras, fato que se comprova pelos índices de investimento na cidade. Ao final apresento uma comparação usando dados do IBGE.

Uma coisa é certa, com estímulos para a prestação de serviços e criação de um centro para isto, a demanda por serviços básicos aumentará, exigindo mais investimentos, entrando num ciclo de crescimento auto-sustentado. Por exemplo, a necessidade por comunicação será aumentada, exigindo investimentos em infra-estrutura de telecomunicações, mais investimentos em provimentos de acesso à Internet de forma profissional e não amadora*, o que aumentará a inclusão digital, aumentando o conhecimento das pessoas que passarão a desejar produtos e serviços cada vez mais avançados. Isto sem falar no advento da TV Digital, que dará um impulso imenso no provimento de conteúdo e serviço digital regionalizado, o que pode tornar Caxambu centro de excelência do Sul de Minas.

Mas a vocação da cidade é o turismo, não posso esquecer, mas isto pode ser feito de forma atual, moderna, lucrativa e auto-sustentável. E o mais importante, a auto-estima da população local deve ser elevada, não se pode confundir hospitalidade com subserviência.

* O acesso à Internet atualmente é feito sem os cuidados técnicos mínimos necessários para garantir, pelo menos, segurança dos dados, isto sem considerarmos que o desempenho das redes é muito baixo.

Sobre o Conservadorismo

Comparando duas cidades de mesmo porte, mas de naturezas distintas, podemos ilustrar o caráter conservador do mineiro no quesito dinheiro.

Caxambu, com aprox. 25 mil habitantes, tem cerca de 30 milhões de reais em poupança e 32 milhões de em operações de crédito. Depósitos à vista somam 6 milhões e a prazo 12 milhões de reais. Totalizam 80 milhões de reais.

Campo Verde, interior do Mato Grosso, com aprox. 25 mil habitantes, tem 5 milhões de reais em poupança e 123 milhões em operações de crédito. Depósitos à vista somam 16 milhões e a prazo 600 mil reais. Totalizam 144,6 milhões de reais.

Não é o total de dinheiro no município que indica o conservadorismo, é o índice de aplicação em poupança e depósitos a prazo. É o famoso estilo mineiro de “guardar porque um dia pode precisar”. Além disto, podemos observar a imensa diferença em operações de crédito, que indica o empreendedorismo, a capacidade de correr riscos.

Alexandre Guimarães

17/05/2006

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