É inútil dizer que o dinheiro é a coisa mais importante da sociedade atual, a parte as hipocrisias que dizem muitos sobre religião, amor, etc. Mas essa importância superlativa acarreta conseqüências extremamente sérias nos mecanismos de valoração de produtos e serviços, especialmente em conjunto com características humanas que defino como perversidade intrínseca. Hoje confundimos riqueza com grande volume de dinheiro, ou seja, rico é o sujeito que tem muito dinheiro, independente da origem deste dinheiro. Vamos esclarecer, então, qual a diferença básica de riqueza e dinheiro.

O dinheiro foi inventado como mecanismo para troca de produtos e serviços quando a sociedade tornava-se complexa demais para usar escambo, era muito difícil definir as bases de trocas de muitas mercadorias. Era necessária uma medida para equiparar coisas muito diferentes, como um metro de seda pura e um dia de trabalho no campo. A seda e o trabalho eram as riquezas geradas que precisavam ser trocadas, não necessariamente pelas pessoas que as produziam. Assim, mesmo sem nenhum conhecimento da moderna matemática, criou-se um espaço métrico capaz de conter todos os valores associados às riquezas geradas pelas pessoas, ou seja, criou-se uma unidade de medida, tal como o metro ou o segundo. Embora o metro e o segundo sejam unidades que medem coisas bem mais palpáveis que riqueza e existem mesmo se o homem não existisse, o dinheiro também deveria ter esta mesma objetividade, esta mesma capacidade de definir, univocamente, o valor de um dado bem ou serviço, embora a riqueza só exista por ser gerada pelo ser humano.

A invenção do dinheiro mudou drasticamente a dinâmica das sociedades, tornou-as muito ágeis, afinal rapidamente era possível comprar e vender, o que incrementava a intercâmbio de grupos, estimulava serviços novos e criava, então, uma sociedade de consumo. Apenas um detalhe, sempre negligenciado em todas as análises sociais e antropológicas, poderia acabar com este sistema, aparentemente perfeito: a perversidade intrínseca do ser humano. Esta perversidade criou a separação do objeto e sua unidade de medida, como se fosse possível separar o tempo e sua unidade de medida ou instrumento de medida, o relógio, ou ainda separar o espaço do metro. Assim o poder passou a ser de quem tinha dinheiro, mesmo que este não gerasse absolutamente nenhuma riqueza. O ladrão poderia ser rico e quem produz de fato pode ser pobre.

A riqueza, então, pode ser compreendida como o objeto resultante de uma ação humana deliberada, algo que não seria capaz de existir sem a intervenção humana, sem a aplicação de forças. Riqueza é o resultado do poder transformador que o homem tem sobre a natureza. Assim, coisas que existam independentes de ações humanas não podem ser consideradas riquezas, e consequentemente não podem ter valores associados, não podem resultar em troca por dinheiro.

Mas a perversidade fez com que os inescrupulosos, que na verdade são os fracos e incapazes de gerar riquezas, inventassem valores em dinheiro para produtos totalmente in-natura, o que fere o conceito de riqueza. Estes fracos, no conceito darwiniano mesmo, aumentaram suas chances de sobrevivência trocando “mercadorias roubadas da natureza” por dinheiro, e passaram a ser poderosos. O que vemos, então, é que a sociedade moderna é construída sobre pilares fracos, onde os indivíduos que ditam regras são os fracos e incapazes naturalmente, que morreriam de fome se virassem Robinson Crusoe, largados em ilhas isoladas.

Um exemplo absurdo, da transformação em dinheiro de coisas que ninguém fez absolutamente nada, é água; uma necessidade primária de qualquer organismo vivo é vendida, trocada por dinheiro, como se fosse um bem, um produto trabalhado. É inimaginável um indivíduo seqüestrar uma nascente e vender a água, que será usada, devolvida para a natureza e depois volta para a mesma fonte, num processo natural e sem nenhuma interferência humana. Assim sendo, se a água for vendida por quantidade, o dono da nascente será um eterno milionário em ritmo crescente, afinal ele vende a água e ela volta, pelas chuvas, para seu “cofre”, num moto contínuo de geração de dinheiro. É a tão sonhada máquina de fazer dinheiro. A riqueza neste processo da água está associada tão somente ao trabalho de distribuição desta água, ou seja, a troca por dinheiro deve ser exclusivamente feita pelo trabalho de levar a água até quem a deseja, ou seja, a remuneração não pode ser pela mineração ou lavra, e sim pelo transporte.

Como já disse, o dinheiro foi separado da riqueza e isto fez com que o dinheiro se tornasse quase um ser vivo, um ente da natureza, com vida própria. Isto é tão verdade que as pessoas já não questionam o dito popular de que dinheiro faz mais dinheiro, numa alusão à multiplicação dos seres vivos. Até propagandas comerciais usam a imagem simbólica de pais dinheiro gerando dinheirinhos filhos.

Assim, com vida própria, o dinheiro não é mais usado para valorar produtos e serviços, ele é usado como item de sobrevivência, quem mais tem mais quer e quem tem pouco quer tomar de quem tem muito. Existem vários mecanismos de se tomar dinheiro de quem tem muito, desde roubo até argumentação falaciosa de distribuição de riqueza, acarretando avaliações estúpidas de bens e serviços, colocando em risco a sobrevivência da sociedade como a conhecemos. Esta valoração equivocada é refletida nos preços que contém não só a riqueza da mercadoria em si, como um monte de coisas agregadas que ninguém sabe e que não quer comprar. Por exemplo, quando compramos um quilograma de carne pagamos também os custos de um fiscal do estado batendo carimbo de vigilância sanitária, mas ninguém nos perguntou se queremos carne certificada ou não. E mais, ainda pagamos pelas propagandas que fazem para dizer que devemos comprar carne certificada, porque os ricos, bonitos e bem sucedidos só comem assim. Isto gera valorações equivocadas e não permite mais a comparação de preços, destruindo o sistema de medidas. Ou seja, gastamos mais riqueza que geramos por menos produto e serviço; se nos primórdios um quilograma de carne era equivalente a uma hora de trabalho no campo, hoje este mesmo quilograma consome talvez oito horas, mas não é em termos de dinheiro e sim de riqueza; não estou falando sobre o sistema inflacionário do dinheiro. A necessidade de mais dinheiro está nos levando a criar mercadorias inexistentes como riqueza e trocar por dinheiro.

Hoje o dinheiro não mede mais a riqueza, que está associada ao esforço real, mede o grau de desejo por ter o produto ou serviço. O espaço métrico original de riqueza não existe mais, hoje existe um espaço métrico onde a medida é desejo, só que se utiliza a mesma unidade para medir, o dinheiro. Um produto vale o quanto se quer este produto, num claro mecanismo de manipulação. E isto vai fazer explodir uma bolha inimaginável de dinheiro de mentira, dinheiro sem lastro de riqueza concreta, sem referência ao lastro de ouro nos bancos. O desejo está gerando dinheiro sem lastro, como é o caso de produtos de marcas famosas, que custam mais caro apenas pela marca, sem nenhum valor agregado real. Esta diferença aumenta a distância entre o volume de dinheiro em circulação e a riqueza real e começa a produzir mudanças absurdas de valores e princípios, como, por exemplo, ser mais útil para muitas famílias ter um canal de televisão por assinatura do que uma alimentação adequada. Isto provoca queda nos preços pagos aos produtores de alimentos, que irão à falência e assim começará um processo de diminuição da quantidade de alimentos disponíveis, passando antes pela formação de empresas imensas que produzem alimentos em série e sem qualidade.

E não adianta os atuais ricos pensarem que estão longe da catástrofe por terem dinheiro à disposição, como dito acima, estes são os fracos no quesito sobrevivência. Só sobreviverá quem, de fato, for apto a gerar riqueza. Os grandes especuladores financeiros terão que comer as verdinhas que plantaram.

Alexandre Guimarães

16/08/2006

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