Fui chamado com uns dez dias de antecedência à Secretaria de Saúde do município de Conceição do Rio Verde para pegar a ficha para uma consulta com psiquiatra, com a informação de que haveria a consulta. Informo para quem não sabe, que moro na roça a cerca de 20 Km do município e passo por uma estradinha que dá pra imaginar como é. Ao chegar ao posto, me deparo com uma enorme fila que supus ser para outro tipo de atendimento, mas, para minha surpresa, era para pegar a guia de consulta, apenas pegar um papel rabiscado para uma consulta outro dia. Exatamente, um deslocamento desnecessário apenas pra pegar um papel sem a consulta, que seria em outro dia.

Isso me surpreendeu porque em outra ocasião, para outra consulta, passei na secretaria, peguei a guia e fui para a consulta no mesmo dia, na mesma hora. Entretanto, em outra oportunidade, para um ortopedista, me chamaram às 16:30 na véspera para pegar a guia. Percebe-se, claramente, que não há procedimento bem definido, deve ser algo que depende da Lua, do humor do chefe do setor, se choveu ou não, se o café tinha ou não açúcar.

Por conta disso, surtei de raiva, quase precisando de um cardiologista, mas aí teria que pegar guia em outro dia para ser atendido quando o médico aparecesse e não desmarcasse. A raiva é por conta de vivermos num mundo altamente conectado, com tecnologias que controlam até o que pensamos, mas um serviço público de necessidade básica ainda está na era da pedra lascada, ou como falávamos na área de TI, do bit lascado. Consultas anotadas em caderninhos esquecidos em fundos de gaveta, algo impressionante. Mas, quando é para nos controlar, como no caso das vacinas, o SUS tem um sistema único que tem até QR Code informando o lote da vacina, que dia tomou, se chorou com a agulha ou não. Não é possível imaginar que um sistema público que arrecada horrores de impostos não consiga implantar um sisteminha vagabundo de agendamento de consultas e exames com envio automático de QR Code via Whatsapp, por exemplo, que pode ser usado até mesmo para confirmação de comparecimento e ordem de chegada ao posto de saúde. Um sistema desse tipo é realmente algo muito simples de ser feito, usando os mesmos métodos de programação de 40 ou 50 anos, sério. Mas, onde está a vontade política disso?

A conta de luz chega em meu celular já com o código para pagamento via PIX, passo com meu carro por câmeras que sabem se paguei ou não o IPVA, ando pelas ruas com câmeras com reconhecimento facial que sabem se existe algum mandado da justiça ou mesmo se minha companhia é minha esposa ou amante, recebo telefonemas de URA’s informando andamento de processos, mas não consigo receber uma simples guia de consulta médica?

Fica óbvio que o objetivo das pessoas que atendem esse serviço público não é a qualidade, mas fazer as pessoas se sentirem dependentes do poder público, numa clara inversão da ordem, pois esse sistema existe para atendimento ao público, não o contrário. As pessoas que precisam do SUS são tratadas como mendigos que estão recebendo favores, e as pessoas aceitam esse tratamento, achando que por não terem dinheiro para consultas particulares precisam ser tratadas como mendigos marginalizados. NÃO, NÃO. Pagamos horrores de impostos para que a saúde e educação sejam de excelente qualidade, mas não é isso que acontece. A saúde e a educação públicas são uma porcaria de quinto nível porque acham que é benevolência, filantropia. Filantropia seria se não pagássemos absurdos de impostos para sustentar políticos parasitas sentados em Brasília ou Belo Horizonte cagando regras estúpidas.

Uma ressalva eu preciso fazer para ser justo com os funcionários e agentes de saúde do posto de saúde que faz meus atendimentos (Estação), que são muito atenciosos e realmente preocupados com os pacientes daquele posto. Talvez por serem eles que colocam a cara no dia a dia, eles têm mais compaixão, empatia e sentimentos dignos por todos que passam por ali, não ficam sentados arrumando desculpas pelos descasos. Como se diz popularmente, quem quer faz, que não quer manda ou arruma desculpas. Realmente preciso ser justo com aqueles que estão tentando fazer a diferença.

Precisamos descobrir o que é cidadania efetiva. As pessoas estão achando que cidadania é falar merda e defender político safado na Internet, passear pelas ruas com bandeirinhas do país ou de partido gritando nomes de políticos mais bandidos que milicianos traficantes assassinos. Não, isso não é cidadania. Cidadania é lutar com alta voz por aquilo que foi combinado e estamos pagando. A Constituição é um combinado do Estado com seu Povo, então o povo tem que cobrar pelo combinado que não é cumprido pelo Estado através dos governantes.

O Prefeito da cidade sempre me fala que eu sou o único que reclama das estradas e do atendimento do SUS, inclusive me chama de louco (o que talvez não esteja errado supondo que os normais estão em casa se submetendo a esse descaso). O que o prefeito não sabe é que as pessoas reclamam comigo, pedem para eu falar porque não têm coragem de falar. Assim, fica parecendo que só eu reclamo. Agora faço a pergunta: eu sou louco ou as pessoas são submissas ao poder do dinheiro dessa forma nojenta? Até quando as pessoas vão aceitar esse tratamento desumano, esse descaso porque não têm dinheiro para pagar médicos particulares? Está na hora de levantarmos os rabos das cadeiras e começarmos a exigir direitos concretos e pararmos de bajular quem tem dinheiro ou poder para ver se sobram migalhas. Não merecemos migalhas!

Acho que vou precisar é de uma guia de internação psiquiátrica, daquelas de manicômio mesmo.

16 de fevereiro de 2024

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